morreste-me

José Luís Peixoto
morreste-me
(Edições portuguesas: 1ª edição - Maio de 2000, edição de autor; 3ª edição - Fev. 2002, Temas e Debates)

E esta tarde, e esta terra agora cruel. Na nossa rua, a nossa casa. A porta doquintal parada à minha frente, fechada, desafiante. Dizia nunca esquecerei, e estatarde lembrei-me. Com os teus movimentos, tirei do bolso o teu molho de chavese, como costumavas, usei todos os cuidados para escolher a chave certa,examinando cada uma, orgulhando-me de cada uma. E, na fechadura, o triunfo. Ascoisas a acontecerem devidamente. A ferrugem, as dobradiças soltaram um gritocomo um suspiro ou um estertor. O alumínio rente ao mármore arrastou, varreuuma figura certa e branca no cobertor grosso de folhas de pessegueiro.Abandonado sobre o tamanho grande de um inverno, o quintal de quando eu erapequeno, o quintal que construíste, pai. Tristes tristes flores novas e folhas novasnos ramos das árvores, canteiros pintados de malvas, trevos, ervas verdes, verdesde quando eu era pequeno e tu chegavas e me ensinavas trabalhos de grande.Orienta-te, rapaz. Eu oriento-me, pai. Não se preocupe. Eu também sei, eu tambémconsigo. Eu oriento-me, pai. não se rale. O trabalho não me mete medo. Estejadescansado, pai. Flores novas e folhas novas nos ramos das árvores, canteirospintados de malvas, trevos, ervas verdes, verdes desta primavera triste triste.Se pudesse tinha-te protegido. Chamavas-me pelo nome, chamavas-me filho, eouvir o meu nome na tua voz, e ouvir filho no fio cálido da tua voz era umaemoção funda. Se pudesse tinha-te protegido. A esperança, pai. De três em trêssemanas, cinco manhãs seguidas viam-te ir ao tratamento; eu, teu filho, via-te irao tratamento e doía-me a vida, doía-me a vida que em ti se negava, a vida agastar-te, ainda que a amasses, a vida a derrubar-te, ainda que a amasses. Otratamento. Falavas nele, dizias a palavra, dizias vou ao tratamento e nós quesabíamos, enchíamo-nos de uma amargura indelével, definitivamente marcadavincada na nossa pele interior. Por tua vontade, nunca te atrasavas. Dizias vou aotratamento, apressavas-me, apressavas a minha mãe, como se alguma coisa tepudesse curar, como se alguma coisa te pudesse devolver os dias. No hospital, asala de espera estagnada de tempo inútil e a minha mãe sentada, só, longe danossa casa e dos nossos sítios, como uma menina tímida, envergonhada. Tu aafastares-te, como o rapaz tratador de vida que sempre quiseste que eu fosse, a 2/4José Luís Peixoto morreste-me
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afastares-te, vestido com a camisa mais nova e as calças mais novas e a camisolaque a minha irmã te deu pelos anos, a afastares-te, pelos corredores carregadosde cinzento e acesos de electricidade baça, a afastares-te, e a sensação terrível denunca mais voltares.Entrei em casa. Apenas a lareira fria, as janelas fechadas a moldarem sombrasfinas no escuro. Do silêncio, da penumbra, um crescer de espectros, memórias?não, vultos que se recusavam a ser memórias, ou talvez uma mistura de carne eluz ou sombra. E vi-te pensei-te lembrei-te, à mesa, sentado no teu lugar. Aindasentado no teu lugar, e eu, a minha mãe, a minha irmã, sentados também, arodearmos-te. Iguais ao que éramos. Ali estávamos há muito tempo, esquecidosabandonados desde um dia em que o passar das coisas parou na nossa felicidadesimples singela. Como uma alegria, como se tivéssemos jantado ouesperássemos jantar ou o melhor banquete, estávamos. Felizes. Nada me eradito, mas eu, olhando, sabia tudo, como se fosse óbvio, como se não pudesse serde outra maneira. Tu, de certeza, tinhas chegado do trabalho, e tinha sido umbom dia, e estavas contente por isso, e as pessoas não faltavam com opagamento e isso era bom. A minha irmã andava no liceu, e as notas eram sósatisfazes muitos e bastantes, e ainda era esperta, e sorria por isso. Eu andava noprimeiro ano da telescola, e não pensava nas notas, e tinha jogado à bola, e tinhaganho, e se tivesse perdido era igual. A minha mãe, mãe verdadeira de todos nós,olhava-nos e sorria assim e sorria por isso. Felizes. Distantes da chuva grossadeste inverno negro, distantes do teu corpo gelado. Lívido na luz trémula dasvelas, arranjadinho, penteado com água, vestido com o fato que usaste nocasamento da minha irmã: o teu corpo gelado. E a Capela de São Pedro cheia degente a abraçar-me, cheia de gente a dizer-me coitadinho e os meus pêsames esinto muito, cheia de gente a procurar-me e a querer agarrar-me e prender-me edizer coitadinho e os meus pêsames e sinto muito. Pai. Perder-te. E revivi osilêncio insepulto dos teus lábios mortos. E as sombras de nós, como se apenasesperassem estes pensamentos para se perderem, misturaram-se no preto. O pódas horas sem gente a vivê-las cobriu os móveis e o espaço fechado entre eles. 3/4José Luís Peixoto morreste-me
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4/4José Luís Peixoto morreste-me As paredes voltaram a separar o inverno nocturno, permanente da casa e o cicloalternado dos dias e do mundo, alheio a nós, para lá de nós. Comigo, a casa estavamais vazia. O frio entrava e, dentro de mim, solidificava. As várias sombras dasombra de mim, imóveis, passeavam-se de corpo para corpo, porque todos eles,todos meus, eram igualmente negros e frios. E abri a janela. Muito longe do lutodo meu sentir, do meu ser, ser mesmo, o sol-pôr a estender-se na aurora brevesolene da nossa casa fechada, pai. E pensei não poderiam os homens morrer comomorrem os dias? assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridadelíquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhaspequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescernatural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um soproquieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nosolhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoiteciadevagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todosos preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; etudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente destemundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudoisto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és odia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres asua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui nonosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuaspalavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer,em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilhoalvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais podereiouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar aspálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados parasempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai.Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.

Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como secontinuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido de luz a limpar ascasas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempoentristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa emaresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhosfalavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo comose continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida. Como no hospital.Dizia nunca esquecerei, e hoje lembro-me. Rostos tornados desconhecidos,desfigurados na minha certeza de perder-te, no meu desespero desespero. Comono hospital. Não acredito que possas ter esquecido. Enquanto esperava pelaminha mãe e pela minha irmã, as pessoas passavam por mim como se a dor queme enchia não fosse oceânica e não as abarcasse também. As mulheres falavam,os homens fumavam cigarros. Como eu, esperavam; não a morte, que nós, seresincautos, fechamos-lhe sempre os olhos na esperança pálida de que, se não avirmos, ela não nos verá. Esperavam. Num carro demasiado rápido, a minhamãe, curvada de perder o que possuía, e a minha irmã. Os homens e as mulheresfalavam e fumavam ainda quando subimos. No quarto, numa cama qualquer quenão a tua, o teu corpo, pai. Talvez distante, preso num olhar entreaberto eamarelado, respiravas ofegante. O ar com que lutavas, lutavas sempre, gritava oseu caminho rouco. Pelo nariz, entrava o tubo que te sustinha. Aos pés da cama,a minha mãe calada, viúva de tudo. À cabeceira, a minha irmã, eu. Cortinas deplástico, biombos de banheira separavam-nos das outras camas. Pousei-te asmãos nos ombros fracos. Toda a força te esmorecera nos braços, na pele aindapele viva. E menti-te. Disse aquilo em que não acreditava. Ao olhar amarelo,ofegante, disse que tudo serias e seríamos de novo. E menti-te. Disse vamosvoltar para casa, pai; vamos que eu guio a carrinha, pai; só enquanto não puder,pai; vá, agora está fraco mas depois, pai, depois, pai. Menti-te. E tu, sincero, adizeres apenas um olhar suplicante, um olhar para eu nunca mais esquecer. Pai.À hora, mandaram-nos sair. Quando saímos, agarrados como naúfragos, a luzabundante bebia-nos.
E esta tarde, e esta terra agora cruel. Na nossa rua, a nossa casa. A porta doquintal parada à minha frente, fechada, desafiante. Dizia nunca esquecerei, e estatarde lembrei-me. Com os teus movimentos, tirei do bolso o teu molho de chavese, como costumavas, usei todos os cuidados para escolher a chave certa,examinando cada uma, orgulhando-me de cada uma. E, na fechadura, o triunfo. Ascoisas a acontecerem devidamente. A ferrugem, as dobradiças soltaram um gritocomo um suspiro ou um estertor. O alumínio rente ao mármore arrastou, varreuuma figura certa e branca no cobertor grosso de folhas de pessegueiro.Abandonado sobre o tamanho grande de um inverno, o quintal de quando eu erapequeno, o quintal que construíste, pai. Tristes tristes flores novas e folhas novasnos ramos das árvores, canteiros pintados de malvas, trevos, ervas verdes, verdesde quando eu era pequeno e tu chegavas e me ensinavas trabalhos de grande.Orienta-te, rapaz. Eu oriento-me, pai. Não se preocupe. Eu também sei, eu tambémconsigo. Eu oriento-me, pai. não se rale. O trabalho não me mete medo. Estejadescansado, pai. Flores novas e folhas novas nos ramos das árvores, canteirospintados de malvas, trevos, ervas verdes, verdes desta primavera triste triste.Se pudesse tinha-te protegido. Chamavas-me pelo nome, chamavas-me filho, eouvir o meu nome na tua voz, e ouvir filho no fio cálido da tua voz era umaemoção funda. Se pudesse tinha-te protegido. A esperança, pai. De três em trêssemanas, cinco manhãs seguidas viam-te ir ao tratamento; eu, teu filho, via-te irao tratamento e doía-me a vida, doía-me a vida que em ti se negava, a vida agastar-te, ainda que a amasses, a vida a derrubar-te, ainda que a amasses. Otratamento. Falavas nele, dizias a palavra, dizias vou ao tratamento e nós quesabíamos, enchíamo-nos de uma amargura indelével, definitivamente marcadavincada na nossa pele interior. Por tua vontade, nunca te atrasavas. Dizias vou aotratamento, apressavas-me, apressavas a minha mãe, como se alguma coisa tepudesse curar, como se alguma coisa te pudesse devolver os dias. No hospital, asala de espera estagnada de tempo inútil e a minha mãe sentada, só, longe danossa casa e dos nossos sítios, como uma menina tímida, envergonhada. Tu aafastares-te, como o rapaz tratador de vida que sempre quiseste que eu fosse, a afastares-te, vestido com a camisa mais nova e as calças mais novas e a camisolaque a minha irmã te deu pelos anos, a afastares-te, pelos corredores carregadosde cinzento e acesos de electricidade baça, a afastares-te, e a sensação terrível denunca mais voltares.Entrei em casa. Apenas a lareira fria, as janelas fechadas a moldarem sombrasfinas no escuro. Do silêncio, da penumbra, um crescer de espectros, memórias?não, vultos que se recusavam a ser memórias, ou talvez uma mistura de carne eluz ou sombra. E vi-te pensei-te lembrei-te, à mesa, sentado no teu lugar. Aindasentado no teu lugar, e eu, a minha mãe, a minha irmã, sentados também, arodearmos-te. Iguais ao que éramos. Ali estávamos há muito tempo, esquecidosabandonados desde um dia em que o passar das coisas parou na nossa felicidadesimples singela. Como uma alegria, como se tivéssemos jantado ouesperássemos jantar ou o melhor banquete, estávamos. Felizes. Nada me eradito, mas eu, olhando, sabia tudo, como se fosse óbvio, como se não pudesse serde outra maneira. Tu, de certeza, tinhas chegado do trabalho, e tinha sido umbom dia, e estavas contente por isso, e as pessoas não faltavam com opagamento e isso era bom. A minha irmã andava no liceu, e as notas eram sósatisfazes muitos e bastantes, e ainda era esperta, e sorria por isso. Eu andava noprimeiro ano da telescola, e não pensava nas notas, e tinha jogado à bola, e tinhaganho, e se tivesse perdido era igual. A minha mãe, mãe verdadeira de todos nós,olhava-nos e sorria assim e sorria por isso. Felizes. Distantes da chuva grossadeste inverno negro, distantes do teu corpo gelado. Lívido na luz trémula dasvelas, arranjadinho, penteado com água, vestido com o fato que usaste nocasamento da minha irmã: o teu corpo gelado. E a Capela de São Pedro cheia degente a abraçar-me, cheia de gente a dizer-me coitadinho e os meus pêsames esinto muito, cheia de gente a procurar-me e a querer agarrar-me e prender-me edizer coitadinho e os meus pêsames e sinto muito. Pai. Perder-te. E revivi osilêncio insepulto dos teus lábios mortos. E as sombras de nós, como se apenasesperassem estes pensamentos para se perderem, misturaram-se no preto. O pódas horas sem gente a vivê-las cobriu os móveis e o espaço fechado entre eles.
As paredes voltaram a separar o inverno nocturno, permanente da casa e o cicloalternado dos dias e do mundo, alheio a nós, para lá de nós. Comigo, a casa estavamais vazia. O frio entrava e, dentro de mim, solidificava. As várias sombras dasombra de mim, imóveis, passeavam-se de corpo para corpo, porque todos eles,todos meus, eram igualmente negros e frios. E abri a janela. Muito longe do lutodo meu sentir, do meu ser, ser mesmo, o sol-pôr a estender-se na aurora brevesolene da nossa casa fechada, pai. E pensei não poderiam os homens morrer comomorrem os dias? assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridadelíquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhaspequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescernatural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um soproquieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nosolhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoiteciadevagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todosos preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; etudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente destemundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudoisto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és odia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres asua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui nonosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuaspalavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer,em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilhoalvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais podereiouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar aspálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados parasempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai.Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.

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